sexta-feira, 8 de abril de 2011

“Precisamos trabalhar ainda mais pela paz”

Texto: Carlos Moioli, do Portal da Arquidiocese do Rio,
Fotos: Carlos Moioli, Agência Brasil e Genilson Araújo - InfoGlobo


Após visitar a Escola Municipal Tasso Fragoso da Silveira, em Realengo, onde um jovem de 23 anos assassinou 12 adolescentes, deixou mais 11 feridos e depois se suicidou, o Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta foi enfático ao afirmar que o acontecimento é uma oportunidade para a reflexão sobre os valores da vida e sobre a responsabilidade que temos uns para com os outros.

- O que vimos, ouvimos e presenciamos deve nos levar a refletir sobre os valores que aprendemos e trazemos no coração, e é também um desafio para trabalhar mais e melhor pelo bem, pela fraternidade e pela paz, afirmou o Arcebispo.

Considerada a maior tragédia do gênero na história do Brasil, o massacre ocorreu na manhã da última quinta-feira, 7 de abril, por volta das 8 horas, quando Wellington Menezes de Oliveira invadiu a escola, situada na Zona Oeste da cidade, disparando vários tiros contra os alunos entre 12 e 14 anos, a maioria meninas. Ex-aluno da escola, adotivo e com os pais falecidos, ele portava dois revólveres e muita munição. Para justificar o crime, deixou uma carta complexa, atestando a falta de equilíbrio emocional.

Ao tomar conhecimento, Dom Orani afirmou em nota que o massacre não só “feria aqueles que foram atingidos, mas também a todos os cariocas”. Assinalou ainda o seu repudio, oferecendo orações e colocando-se em unidade à dor de todos que foram vitimados — pais, familiares, professores e amigos.


Ainda na parte da manhã, Dom Orani foi levar sua solidariedade, em nome da Igreja, a todos os envolvidos. Acompanhado pelos bispos auxiliares Dom Paulo Cezar Costa e Dom Nelson Francelino Ferreira, foi primeiro até a escola, onde havia um grande número de presbíteros da região, capelães militares e o vigário episcopal do Vicariato Oeste, Monsenhor Luiz Artur Marques de Barros Falcão. O governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes também estavam no local.

- Encontramos, em Realengo, uma situação assustadora e triste. Os familiares choram entristecidos, querendo encontrar uma justificativa da dureza de um coração, que cada vez mais vai ganhando espaço na sociedade. Somente Jesus Cristo para consolar os corações abatidos, afirmou Monsenhor Luiz Artur.

Em seguida, Dom Orani foi até o Hospital Albert Schweitzer, o mais próximo da escola, onde conversou com a direção da instituição, médicos e familiares das vítimas. Pôde presenciar toda a movimentação de familiares angustiados em busca de notícias. Devido à gravidade dos ferimentos, alguns adolescentes foram transferidos para hospitais especializados, enquanto os falecidos eram encaminhados para o IML, aguardando o reconhecimento por parte dos familiares.

Ao manifestar sua consternação pelo massacre, depois de sua visita à escola e ao hospital, em entrevista aos meios de comunicação da Arquidiocese do Rio de Janeiro, Dom Orani pediu orações por todos os envolvidos, particularmente pelos pais que perderam seus filhos, a fim de que eles possam ser confortados por Deus. Compreendendo-os como mártires da violência, pediu a Deus para que fato semelhante não volte a acontecer na cidade.

Ao comentar o histórico de vida e a atitude doentia do atirador, marcado por situações complexas no âmbito familiar e social, o Arcebispo lembrou a necessidade e a responsabilidade da sociedade. Disse que cada pessoa deve ser amada, acolhida e ter condições de viver bem, na dignidade dos filhos de Deus.

- Apesar da dimensão da tragédia, precisamos olhar o futuro com esperança e confiança, e, de mãos dadas, construirmos juntos um mundo melhor. Faz parte da nossa missão, como cristãos, educar a todos para o bem, para a fraternidade. A começar pelas nossas crianças, devemos ensinar a importância de buscar a Deus, de respeitar a vida e, sobretudo, uns aos outros. Os valores que plantamos, isso é o que colhemos, afirmou Dom Orani.

Solidariedade


Durante a entrevista, Dom Orani lembrou que a Igreja, por meio dos párocos e das comunidades paroquiais próximas à escola, irá acompanhar a situação das famílias vitimadas, respeitando a liberdade de cada uma, para prestar o conforto espiritual necessário ou para ações de solidariedade.

A primeira celebração eucarística pelas vitimas e por seus familiares aconteceu na noite de ontem, 7 de abril, na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Realengo. A Missa de sétimo dia, presidida por Dom Orani, está agendada para a próxima quarta-feira, 13 de abril, às 9h, na quadra da própria escola, com transmissão ao vivo pela Web Tv Redentor, no Portal da Arquidiocese do Rio de Janeiro, e pela Rede Vida de Televisão.

Repercussão

A tragédia de Realengo ganhou repercussão internacional. A notícia foi veiculada nos maiores meios de comunicação do mundo, que recordaram os ataques semelhantes ocorridos em outros países, como nos Estados Unidos, numa escola em de Columbine.

Recordando os brasileirinhos, a presidente Dilma Rousseff decretou luto oficial de três dias.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) recebeu a notícia com "revolta e horror".

Dom Orani recebeu inúmeras manifestações de solidariedade em favor das famílias das vítimas, inclusive a do Papa Bento XVI, em mensagem enviada pelo secretário de Estado de Sua Santidade, Cardeal Tarcísio Bertone.

Ensino Religioso confessional e plural

O atentado, em Realengo, encerrou o sonho de estudantes e de seus familiares, justamente num espaço de aprendizagem, de convivência e de construção da cultura da paz.


Apesar da aparente diminuição da violência na cidade, na opinião do bispo auxiliar Dom Antonio Augusto Dias Duarte, ela chega até as famílias através dos meios de comunicação, podendo despertar atitudes externas fora dos padrões de uma pessoa equilibrada, acarretando muitos malefícios.

Ressaltando a solidariedade do Arcebispo, ao ir ao encontro das famílias das vítimas, Dom Antonio lembrou que a Igreja é mãe e que está presente em todas as realidades da cidade. Que a presença da Igreja não é moralista, mas materna.

- Quando a Igreja luta por seus ideais, por exemplo, pela implantação do Ensino Religioso, confessional e plural na escola pública, não é porque ela quer divulgar a religião, mas formar bem a criança no âmbito da moral e da ética, ensinar a respeitar a vida, a família, o semelhante e demais valores sociais que repercutem na paz e na harmonia na sociedade, afirmou.

Para o diretor do Instituto de Direito Canônico da Arquidiocese, Padre José Gomes Moraes, a tragédia ocorrida em Realengo é um grande paradoxo. A violência é o oposto da educação em um país civilizado. A escola é o espaço onde o cidadão aprende a convivência, a solidariedade, a cultura, a civilização. Nesse contexto, lembrou a importância do Ensino Religioso nas escolas, que deve ocupar seu papel de bem formar o cidadão na condição integral, mas com Deus no coração e na vida.

- Por detrás da violência se encontra a raiz de toda a problemática da sociedade pós moderna. Há ausência de valores, de modo especial do amor à vida. Deve haver respeito pela diversidade e pluralidade de raças, cor, e religião. Devemos sempre encontrar a raiz comum, pois somos todos imagem de Deus, afirmou.

Diante da situação de terror, a Igreja implora por misericórdia e perdão, sublinhou Padre José Gomes. Lembrando o tempo da Quaresma, propício para a conversão e também para acolher os ensinamentos de Bento XVI, como os da última Via Sacra presidida do Coliseu, quando lembrou que o sangue de Cristo e dos mártires não grita por vingança.

- Diante das vitimas inocentes, pedimos misericórdia e perdão. Às famílias, prestamos nossa solidariedade orante, não o silêncio da indiferença, mas o de uma reflexão profunda sobre o valor da vida e da confiança em Deus, afirmou o Sacerdote.

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