sexta-feira, 15 de abril de 2011

Homens e Deuses - Sinopse



Em um mosteiro nas montanhas da Argélia nos anos 90, oito monges cristãos franceses vivem em harmonia com seus irmãos mulçumanos. Mas o terror e a violência começam a tomar conta da região. Apesar do perigo crescente ao seu redor, os monges decidem ficar, custe o que custar. Baseado na história real dos sete monges franceses que foram sequestrados e assassinados em um dos pontos altos das atrocidades que aconteciam no país durante o confronto entre governo e grupos extremistas.

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Críticas Profissionais

Susana Schild, do Jornal O Globo


A intolerância é cinza
“Os homens nunca fazem o mal tão completamente e com tanto entusiasmo como quando o fazem por convicção religiosa.” A frase proferida pelo filósofo Blaise Pascal em meados do século XVII é evocada por um monge trapista às vésperas do século XXI, não em tom de condenação, mas de perplexidade.

Em cartaz a partir da sexta-feira (15/04), “Homens e deuses” (“Des hommes et des dieux”), inspirado em fato real, com direção de Xavier Beauvois, saiu com o Grande Prêmio do Júri do último Festival de Cannes, recebeu o César de melhor produção francesa de 2010, foi sucesso de bilheteria em seu país e tem sido recebido com entusiasmo no circuito internacional — uma acolhida surpreendente levando em conta a essência de sua trama: o comprometimento de uma pequena comunidade religiosa com seus princípios, custe o que custar.

Atores têm boas atuações

Nos anos 1990, oito monges trapistas franceses vivem em um monastério incrustado em montanhas argelinas. Dedicam-se a um cotidiano ritualizado, dividido entre orações e atividades ligadas à subsistência. Paralelamente, desenvolvem uma harmoniosa convivência com a população muçulmana local, compartilhando suas dores e pequenas celebrações populares, sem nenhuma pretensão de catequese. Neste grupo sem hierarquia, dois religiosos se destacam: Frei Christian (Lambert Wilson, em contenção primorosa), que tem sobre a mesa um exemplar do Alcorão ao lado de textos de São Francisco de Assis, e Frei Luc (o veterano Michael Lonsdale, soberbo), um velho médico debilitado e um poço sem fundo na capacidade de doação.

Quando fundamentalistas islâmicos assassinam um grupo de trabalhadores estrangeiros, a harmonia é subitamente esfacelada. O Exército intervém, sem aliviar o clima de insegurança. Autoridades locais aconselham os monges a voltar para casa — não podem garantir suas vidas. Cabe a um oficial proferir a única ligação entre o passado dos dois países envolvidos, responsabilizando a truculenta ocupação francesa pela herança de violência e radicalismo que proliferou na Argélia.

A tensão entre os dois lados é construída com habilidade, com uma fotografia que acentua os tons cinza e azulados da vida monástica, eventuais respiros através da natureza áspera e poderosa. Entre os muros do monastério, a liturgia, os cantos, o atendimento aos carentes. Fora dos muros, uma violência crescente e incontrolável. “Hoje as pessoas matam sem saber o motivo”, lamenta um muçulmano. Os agressores “visitam” o monastério em busca de auxílio médico. Um diálogo áspero entre as duas partes na noite de Natal parece sacramentar diferenças inconciliáveis

Apesar da tentativa de manter a normalidade, os religiosos apresentam uma cisão: alguns decidem ficar, outros desejam partir. Afinal, não são santos nem deuses, apenas humanos, talvez demasiadamente humanos. Têm seus medos, fraquezas, aspirações e, se abraçaram a causa religiosa, não se sentiam tentados pelo papel de mártir — até então.



Uma obra austera e reflexiva

As discussões sobre ficar ou partir se encaminham para uma decisão coletiva, celebrada durante um jantar regado a duas garrafas de vinho e embalado pelo “Lago dos cisnes”, de Tchaikovsky. Uma bela cena, praticamente sem palavras, em que cada rosto parece revelar que aqueles homens são, antes de tudo, reféns de suas consciências. E sem possibilidade de negociação.

Com uma filmografia de temas e estilos diversificados — “Não esqueça que você vai morrer” (sobre um rapaz portador de HIV), “O pequeno tenente” (um policial urbano), “Selon Mathieu” (um drama familiar) — Xavier Beauvois não sugeria nenhuma vocação religiosa. Ao narrar o episódio do ponto de vista dos monges, ele oferece uma obra austera, reflexiva e extremamente contemporânea sobre os impasses da convivência entre homens de credos e deuses diferentes, sujeitos à barbárie em vários pontos do planeta.


Um comentário:

GDOC disse...

Adorei o filme. A atuação e direção do filme estão excelentes. O filme mostra como os monges são homens comuns que escolheram uma vida dedicada a Deus e que a coragem não é ausência de medo...mas sim uma atitude que fortalecida pela fé, os ajuda a enfrentar o medo e, assim, apesar dele, decidem agir como deuses. Dione.

14 de julho de 2011 22:16