segunda-feira, 7 de maio de 2012

O abraço de São Francisco


Texto e fotos: Carlos Moioli

 
 
No dia 27 de abril, o governo do Estado firmou uma parceria de gestão compartilhada com a Arquidiocese do Rio de Janeiro para ampliar o atendimento do Hospital São Francisco da Penitência, na Tijuca.

Realizada no Palácio Guanabara, em Laranjeiras, estavam presentes à cerimônia o governador Sérgio Cabral, o arcebispo Dom Orani João Tempesta, o secretário de Saúde, Sergio Côrtes, e o atual diretor do hospital, frei Francisco Belotti.

A parceira é considerada o segundo milagre de São Francisco. Há um ano, o hospital foi salvo de ter suas portas fechadas.
Desde março de 2011, está sendo dirigido por religiosos vinculados à Fraternidade São Francisco de Assis na Providência de Deus, com larga experiência na área de saúde.

“A Igreja Católica é corresponsável pelo bem estar das pessoas, que deve estar acima de qualquer interesse político ou ideológico. No ano em que estamos refletindo sobre saúde pública, o funcionamento de um hospital de qualidade, gerido por religiosos vocacionados na área da saúde e, agora, com a possibilidade do atendimento do SUS, é um grande presente para a população, principalmente de baixa renda”, frisou Dom Orani.

Dentro da infraestrutura já existente, o hospital terá centros de referência para tratamento de HIV/Aids, tuberculose e hepatite e um serviço de pré-transplante, encaminhados pela Central de Regulação do Estado, e será uma referência em doenças coronarianas.

O mais importante da parceria é a disponibilização de 200 leitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que abre caminho para o atendimento dos mais pobres, que não têm condições de pagar um plano de saúde. A previsão é que o os novos leitos entrem em pleno funcionamento no início do segundo semestre deste ano.


 Nova gestão

Depois de uma crise de gestão, que estava inviabilizando o seu funcionamento, até com o perigo de fechar suas portas, o hospital foi confiado à Fraternidade São Francisco de Assis na Providência de Deus, que atualmente administra 67 instituições na área de saúde, a maioria no interior do Estado de São Paulo.

“O cuidado com os doentes, que faz parte da missão da Igreja, é um aspecto muito importante para nós, motivo que nos trouxe ao Rio. Queremos transformar esse hospital em um templo de saúde e de paz para todas as pessoas que buscam assistência médica”, disse o frei Francisco Belotti.

De acordo com o superintendente, frei Paulo Fernandes Batista, o hospital possui atualmente quase 600 leitos e mais de 40 especialidades, com enfoque em cirurgias, cardiologia, radiologia, além de atendimentos ambulatoriais. Mais de mil pessoas são atendidas diariamente por 1,2 mil profissionais ligados à saúde, entre médicos, pessoal de enfermagem, nutrição, higienização e demais áreas.

Um dos segredos de uma boa gestão, explicou frei Paulo, é encarar o trabalho como missão. Apenas aproveitar o que é bom e necessário, eliminando tudo o que é supérfluo. O diferencial também está na administração das frentes de trabalho. Seja em cada uma, quer na farmácia, na nutrição, na higienização, na enfermagem, o serviço é coordenado por uma religiosa. Ao todo, são 18 religiosas de cinco diferentes congregações atuando na instituição.

“Para manter obras com esse espírito se faz necessário pessoas que nos procurem pelo simples gesto de amar, de servir a Deus no próximo”, disse frei Francisco.

Além da cura do corpo, também a preocupação com a saúde da alma. Na nova administração, há espaço para a evangelização dos doentes em seus leitos, desempenhada pelos consagrados e por uma equipe da Pastoral da Saúde. Os funcionários começam o dia com oração e partilha da Palavra de Deus e, uma vez por semana, são conduzidos por uma profunda experiência de Deus.

“A gente descobre que o altar é o hospital, e que Jesus, o sacrifício, está em cada pessoa no seu leito. A Igreja não está reduzida num templo ou sacristia, mas ampliada em cada pessoa que sofre. Em cada leito Jesus repete: ‘Estive doente e me visitastes’, e grita ao nosso ser: ‘Eis o meu corpo, eis o meu sangue’. Ao cuidar dos doentes, entendemos que essa é a via de salvação, porque é o encontro com o próprio Cristo sofredor”, frisou frei Paulo.

De propriedade da Venerável Ordem Terceira, o hospital tem sua origem no século 18, no Largo da Carioca. Na Tijuca, funciona desde de 1933.

Providência de Deus

Quando ordenado na Diocese de São José do Rio Preto (SP), em 21 de dezembro de 1984, o padre Nélio Joel Angel Belotti, que adotou o nome religioso de Francisco, pediu para trabalhar numa paróquia onde era recusado pelos padres. Foi enviado a Jaci, uma pequena cidade predominantemente rural, cuja população em 2010, segundo dados IBGE, era de 5, 6 mil habitantes.

Ao ganhar um pedaço de terra, construiu um abrigo para recuperar os dependentes químicos, principalmente os jovens, depois ampliando o trabalho em lugares diferentes da cidade, destinados aos adolescentes e às mulheres. Também construiu uma casa de encontros, um lar para idosos, uma igreja e um hospital.

“O meu agir sempre foi inspirado em São Francisco de Assis, no seu gesto de abraçar um leproso. Ao acolher e cuidar das pessoas que sofrem no corpo e na alma, estamos resgatando esse gesto, que é o da própria Igreja, alicerçada no Evangelho”, afirmou frei Francisco.

Junto com as obras, surgiu a Fraternidade São Francisco de Assis na Providência de Deus, reconhecida pelo então bispo diocesano, Dom Orani João Tempesta, na festa de Santa Clara do ano 2000, como associação privada de fiéis. Hoje a fraternidade é composta por 36 frades, sendo quatro sacerdotes.

Depois de Jaci, o trabalho foi ampliado para outras cidades da região, principalmente com a administração de hospitais através de comodatos. Hoje, a Fraternidade já cuida de 67 obras nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Rio de Janeiro e também no Haiti. Sempre com o desejo de aumentar os serviços, atualmente as obras atendem 15 mil pessoas por dia.

 






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